sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Restos

A toalha de rosto não era trocada há duas semanas, mas ninguém parecia se importar com isso. Os respingos de pasta de dente ressecados no espelho reforçavam a sensação de abandono. Sentada sobre o tampo do vaso, olhava as manchas de mofo esparramando-se pelo teto, abraçando as paredes e apropriando-se do espaço. Aquele espaço que já fora de risos, suspiros e promessas. Agarrada aos seus próprios joelhos, sentiu os dedos dos pés, abrigados por meias surradas. Há quanto tempo não fazia um banho de creme naquele cabelo?
Desde que ele passou a chave pela porta, levando meia dúzia de pertences, perdera a vontade de tomar leite. Também já não devorava as geleias nem arriscava abrir o pote de biscoitos, que a essa altura estariam murchos, passados. Também ela vivia de passados.

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