quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Eu me alimento

Eu me alimento
das conversas paralelas nas filas
da mulher que se maqueia no transporte público
dos ipês em flor
do cheiro de café que escapa da lanchonete
Eu me alimento
do bolo de fubá vendido na banca da rua
e devorado às pressas, no meio do caminho
Eu me alimento dos pedestres que se arriscam
em travessias perigosas
E do casal adolescente que se escora
no muro da escola
enquanto não bate o sinal
Eu me alimento do vento gelado
que corta a bochecha e avermelha o nariz
Da poeira, da fuligem, da lata de refrigerante esquecida na calçada
Eu me alimento da Tuiuti lotada
E da batata frita vendida na porta do shopping
Eu me alimento dos jornais, das revistas, dos sites
e das muitas notícias que quase ninguém lê
Eu me alimento da TV
que exibe rostos maquiados, textos maquiados
Eu me alimento da hora marcada, do som do despertador
E das tardes preguiçosas, sentada no chão, pernas cruzadas
e braços abertos
Eu me alimento do mundo.
E isso, às vezes, é indigesto.

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